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Tempo do Sairé

Jackson Fernando Rêgo Matos*

Novamente setembro chegou e com ele chega o tempo do Sairé na vila de Alter do Chão, município de Santarém, na região do Tapajós. Considerada como a mais alta demonstração de amor a Deus do povo Borari, essa é a festa folclórica mais antiga da Amazônia brasileira, com registros de mais de 250 anos.

Muitos estudiosos brasileiros e estrangeiros a descreveram e participaram dela, entre eles o fundador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, João Barbosa Rodrigues, e ilustres cientistas como Bates, Wallace, Teodoro Sampaio e Nunes Pereira, este último autor do clássico Moronguetá e que, no livro Sairé e Marabaixo, descreve a festa com suas particularidades e nos leva a entender o Sairé como um Dabacuri indígena. Atualmente, muitos trabalhos realizados, entre eles o da Profa. Socorro Santiago, do Amazonas, e artigos de estudiosos como mestre Cristovam Sena, do ICBS, e algumas referências em minha tese de doutorado pela Unb, trazem reflexões sobre o espírito associativo deste evento que representa a união comunitária de um povo.

Resultado do sincretismo religioso do catolicismo trazido pelos jesuítas no século XVII e dos rituais indígenas existentes em boa parte das diferentes regiões como Itacoatiara e rio Negro, a festa existe hoje somente na Vila de Alter do Chão, às margens do belíssimo rio Tapajós. Como professor da Ufopa e representante desta Universidade no Conselho da APA de Alter do Chão e amante do Sairé, uma pergunta faz-se necessária: o que levou este povo simples a preservar um ato como este por tanto tempo no palco de uma Amazônia tão saqueada? A resposta só se alcança após muitos anos de participação e atenção para a delicadeza e singeleza dos gestos, dos risos, da alegria e do sagrado que se manifesta em cada canto, palavras, fitas coloridas, palhas abertas, nos bolos de macaxeira, no vatapá e nas diversas goladas do delicioso tarubá.

O sairé, que na grafia original começa com Ç, quando escrita desta forma, traz como bem disse Felisbelo Jaguar Sussuarana, a inconfundível beleza das paisagens de Alter do Chão e marca a originalidade de seu povo. Este sim, o grande responsável pela resistente fé que eterniza o que Barbosa Rodrigues observou ser uma emanação das águas.  A sacralidade da festa começa com a busca dos mastros, que acontece sempre no sábado que antecede a abertura oficial na quinta-feira da segunda quinzena de setembro. Dois mastros, um dos homens e outro das mulheres, são colhidos nas matas do Lago Verde e todos os personagens da festa, como a saraipora (dona Maria Justa), juízes, capitão (mestre Camargo), mordomos, alferes, foliões, brincantes, visitantes e turistas de várias partes do Brasil e do mundo acompanham a procissão bailada das canoas comandadas pelos catraieiros, e dão a exata percepção de que o rio é a nossa rua e nossa vida e comanda suavemente a festa no fluir de suas águas.

Presença marcante durante todo o rito sagrado, o Espanta Cão firma-se na festa como um grupo de grande representatividade da música brasileira e folclórica mundial. Este ano, seu Silvito Malaquias Ribeiro, um de seus fundadores, completou 90 anos e é muito gratificante ver que o velho mestre continua, mesmo que distante, comandando os ritmos como o curimbó, marambiré, lundum, marabaixo e desfeiteiras e que com seus versos dão a graciosidade que compõem a harmonia no barracão, na praça e palcos da vila de Alter de Chão.

Neste ano de 2012, centenário do maestro Izoca e 70 anos do Sebastião, a música do Tapajós está enraizada tanto no Sairé quanto nas disputas dos botos Tucuxi e Cor de Rosa. Dança da mata de Beto Paixão (que ganhou a versão “Alter do Chão do meu coração, te amo tanto” no refrão), “Fogo do Sairé” de Maria Lídia, “Lenda do Boto” de Wilson Fonseca, “Carinho Nativo” de Eduardo Dias, “Flor de Aguapé” de Valmir Pacheco na voz de Nato Aguiar, além dos compositores da vila, como Neca Lobato, Luís Alberto e Chico Malta, dão o destaque merecido à nossa música regional, este ano embalado pelo CD “Tapajós em Festa”, do Movimento Roda de Curimbó, promete ganhar mais força, aproveitando a novidade que a música do Pará vem ganhando na mídia nacional. Na quinta-feira, logo após a cerimônia de levantamento dos mastros, o Roda de Curimbó estará mostrando o seu tom de encanto e magia.

Mais um ponto importante precisa ser destacado. O esforço do grupo gestor da Área de Proteção Ambiental de Alter do Chão em fechar o acesso dos carros à praia e em alguns lugares críticos, às lanchas e aos jetskis. Nossa preocupação está em conscientizar a todos os moradores, brincantes e visitantes de que Alter do Chão é um espaço frágil que precisa de ações para sua conservação. Estabelecer normas e regras para diminuição da poluição ambiental é uma atitude que precisa ser seguida e respeitada por todos os que frequentam e usufruem dos benefícios que a natureza nos oferece de graça. Regular o uso e diminuir os perigos eminentes é um dever de todas as entidades, instituições e pessoas que amam este lugar, por isso pedimos a compreensão de todos para que este Sairé seja o começo de um tempo de maior cuidado com o patrimônio natural que pertence a todo o povo do Tapajós.

Que o Tempo do Sairé seja o tempo de viver nossa brincadeira, pois a vida inteira em Alter do Chão se resume em oração, como canta nosso Capitão. Quando cantarmos na quinta-feira, “vou celebrar folclore, fartura e fé” e teremos a certeza de que a caravela do tempo atracou na tradição, e aí Alter do Chão terá novamente o sagrado em seu coração, assim a diversão será um ótimo tempo para que todos possam refletir sobre o que realmente fazem pelo bem comum. A Ufopa certamente estará presente nas pesquisas e na interação de nossa comunidade com tudo o que há de bom no Sairé.

*Engenheiro Florestal, professor do IBEF/UFOPA, morador da Vila/APA de Alter do Chão e componente do Movimento Roda de Curimbó.