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Universidade Federal do Oeste do Pará

Biometeorologia Estatística: Pesquisas investigam os efeitos do clima na saúde humana


13 de Junho de 2019 às 11:35

Área aplicada da Meteorologia que estuda a relação entre as condições atmosféricas e os seres vivos do planeta, a Biometeorologia é o eixo central de pesquisas desenvolvidas por alunos de graduação da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). Coordenado pela professora Ana Carla dos Santos Gomes, do curso de Ciências Atmosféricas do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG), o projeto “Biometeorologia Estatística: Análise dos modos da variabilidade sazonal da região do Oeste do Pará e seus efeitos na saúde” tem por objetivo entender como as condições climáticas afetam a saúde humana.

Criado em 2017, o projeto integra o grupo de pesquisa “Ciências Atmosféricas na Amazônia”, cadastrado no CNPq, que estuda as interações da atmosférica na Amazônia, incluindo desde a análise de nuvens e o comportamento da floresta, previsão do tempo, climatologia e questões relacionadas à influência do clima em diversos setores. “O nosso projeto trabalha especificamente com a vertente da biometeorologia humana. Buscamos compreender a relação entre condições climáticas, conforto térmico e a saúde da população”, explica.

“Estamos interessados em entender como é que o comportamento climático afeta as doenças, sejam elas respiratórias, cardiovasculares e infecciosas”, explica Ana Carla dos Santos Gomes. “Algumas de nossas publicações envolvem resultados sobre o impacto do clima sobre doenças como a asma, a hipertensão, o infarto agudo do miocárdio, bronquite, entre outras”.

Para a docente, a questão da saúde envolvendo o clima é tão presente que é possível perceber, por exemplo, que a venda de determinados medicamentos é sazonal. “Isso é um indicativo de que a quantidade de chuvas ou a alteração nos valores da temperatura do ar atingem diferentes áreas e, por isso, é tão importante estudos climáticos clássicos como os ligados à previsão do tempo, como os aplicados relacionados à economia, agricultura, e principalmente à saúde”, explica.

Para a docente, as pesquisas na área contribuem para informar a sociedade e os gestores públicos a respeito dos períodos do ano que terão os maiores índices de ocorrência das doenças investigadas relacionadas ao clima, incentivando assim a prevenção e o planejamento das ações de atendimento dos doentes. “É possível falar para a população sobre os cuidados com a saúde, visando prevenir o aumento dessas doenças”.

O grupo é formado por alunos de graduação do bacharelado interdisciplinar de Ciências da Terra e dos cursos de Ciências Atmosféricas, Geologia e Geofísica. “Como a relação existente entre as condições atmosféricas e as internações não ocorre de forma direta, os alunos envolvidos precisam ter conhecimento de técnicas estatísticas robustas, as que irão permitir ajustar essa associação, uma vez que não é tão simples, numericamente, relacionar clima e saúde”.

O projeto conta com a parceria do Instituto de Saúde Coletiva (Isco), por meio da participação de alunos de graduação dos cursos de Farmácia e do bacharelado interdisciplinar em Saúde Coletiva. “Esses alunos já trazem na bagagem um conhecimento mais detalhado da área de saúde, o que é de extrema importância, pois, além de ser compartilhado junto aos alunos do IEG, enriquece nossas pesquisas”.

 

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Parte da equipe do projeto de pesquisa Biometeorologia Estatística.
Foto: Bartolomeu Rodrigues (estagiário/Comunicação Ufopa).

 

Doenças - Acadêmico do curso de Geologia, Matheus Santos Pereira pesquisou como as variáveis meteorológicas influenciam na incidência da asma no município de Itaituba. “A asma é uma doença que tem alta relevância no contexto de pesquisa, pois só em 2011 foi considerada a quarta doença em número de internações no Brasil”, explica.

Segundo Matheus Pereira, a asma é influenciada por vários fatores, entre eles, as variáveis meteorológicas, como a temperatura do ar e velocidade dos ventos, que foram analisadas pelo estudo. “Entre os anos de 2005 a 2016 ocorreram três eventos climáticos que colaboraram para períodos de seca na região”. A pesquisa revelou que a variável meteorológica ‘temperatura mínima’ é a principal influenciadora na incidência dos casos de asma em Itaituba.

Aluna do quinto semestre do curso de Geologia, Larissa Maiara Amorim Picanço realizou um estudo sobre as variáveis climáticas e as infecções agudas das vias aéreas superiores em Belém, capital do Pará, no período de 1998 até 2016. “Os resultados mostraram associação significativa entre as seguintes variáveis: temperatura mínima, umidade relativa e precipitação com as internações, destacando que o maior risco relativo é ocasionado por alteração nos valores da temperatura”, explica. O trabalho, que foi publicado no início deste ano, revela que a temperatura mínima é o fator que contribui para o aumento de caso de internações por infecções agudas nas vias aéreas superiores na capital paraense.

Hipertensão - O aumento da incidência de doenças cardíacas, principalmente no verão, é outro tema investigado pelo grupo. “Já analisamos os índices de insuficiência cardíaca e de infarto agudo do miocárdio na população de Santarém e detectamos que a temperatura máxima contribui para o aumento nas internações”, revela a professora Ana Carla Gomes.

Eliane Leite Reis de Sousa, discente do sétimo semestre do curso de Ciências Atmosféricas, participa do projeto investigando como a variável meteorológica ‘temperatura máxima’ influencia no aumento dos casos de hipertensos nas cidades de Óbidos e Monte Alegre. O estudo utiliza dados disponibilizados pelo Banco de Dados Meteorológicos para Ensino e Pesquisa (BDMEP), vinculado ao Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), além de informações do Banco de Dados do Sistema Único de Saúde (Datasus) sobre a quantidade de hipertensos na região.

Segundo Eliane Sousa, o interesse pelo estudo partiu da informação fornecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que classifica a hipertensão como uma das doenças que mais matam no mundo. “O estudo realizado nos municípios de Óbidos e Monte Alegre comprova que a temperatura máxima influencia na doença”, afirma a discente.

Conforto Térmico - Recentemente, o projeto ampliou sua área de investigação, incluindo novos temas de estudo, como o conforto térmico, as mudanças climáticas e os desastres naturais. “Estamos buscando entender, não só de forma objetiva, mas também de forma subjetiva, como o calor em Santarém afeta a população, influenciando indiretamente nas internações, seja por causas respiratórias ou até mesmo por causas cardiovasculares”, explica Ana Carla Gomes.

Intitulado “Conforto térmico e seus impactos na saúde da população residente do Oeste do Pará”, o estudo é realizado pelo discente Thiago Bentes Mandu, acadêmico do sétimo semestre de Ciências Atmosféricas. “Esse é o primeiro estudo que relaciona conforto térmico, que é uma medida que expressa a satisfação do ser humano com o ambiente onde está inserido e condições de saúde”, explica o discente. “Trabalhamos com a análise subjetiva no município de Santarém e objetiva em Monte Alegre, Óbidos, Porto de Moz e Belterra, por meio de índices já presentes na literatura”.

O estudo está dividido em três etapas. “A primeira é uma análise subjetiva, realizada por meio de questionário para avaliar o conforto térmico”, explica o discente. Na segunda etapa, serão avaliados os índices de conforto térmico já existente na literatura, a partir da verificação da compatibilidade com os dados obtidos pela pesquisa de campo. A última fase é uma análise estatística dos impactos do conforto na saúde da população de Santarém.

Já Alana Maués de Sousa, acadêmica do quinto semestre do curso de Ciências Atmosféricas, está investigando os impactos das mudanças climáticas na cidade de Monte Alegre. “Mudanças Climáticas é uma variação estatisticamente significativa em um parâmetro climático médio, incluindo sua variabilidade natural, que persiste num período extenso, tipicamente décadas ou por mais tempo”, explica.

O estudo tem como ferramentas a modelagem estatística e testes de tendência, que possibilitam a criação de cenários futuros do clima para a região estudada. “O estudo tem grande importância pela caracterização do clima na cidade e a sua provável influência na alteração nos padrões de algumas doenças relacionadas ao clima”. A pesquisa é recente, e a carência de estudos para a região de Monte Alegre possibilitou a escolha da cidade.

Mayse Thaís Correa Rebelo, acadêmica do curso de Ciências Atmosféricas, estuda de que forma os desastres naturais impactam na saúde da nossa população. O objetivo do estudo é, a partir de dados sobre desastres registrados na região Oeste do Pará, analisar a inter-relação entre esses eventos e seus impactos sobre a saúde. O projeto de iniciação científica atualmente está na fase de elaboração de banco de dados.

Defasagem - Ana Carla Gomes explica ainda que a relação entre clima e doenças não é linear, nem momentânea, o que ressalta a necessidade de utilizar técnicas que, além da correlação, busquem informar o tempo da associação, visando entender a interação entre as condicionantes pesquisadas. “A estatística é essencial. Ela é a nossa principal ferramenta para compreendermos de que forma o clima vai afetar a saúde humana, como também a defasagem que ocorre entre o evento climático e o surgimento das doenças”.

Segundo a pesquisadora, com base nos resultados obtidos, é possível identificar, por exemplo, o período do ano em que haverá maior necessidade de leitos por causa das internações, quais doenças que possivelmente terão maior incidência. “Já conseguimos dizer que, se começou a chover, daqui a tantos meses o pessoal da saúde (SUS) vai precisar ter um aparato porque vai aumentar o número de internações”.

Segundo a pesquisadora, para a região, de forma geral, constatou-se que no período chuvoso (dezembro a abril), ocorre aumento nos atendimentos por doenças respiratórias, principalmente por crianças e os idosos. Nos períodos de transição (maio a julho e outubro a novembro), é mais favorável o surgimento das doenças vetoriais, e na época seca, pessoas com doenças preexistentes precisam ficar em alerta, principalmente devido aos episódios de inversão térmica, que possibilita, por exemplo, que seja inalado pela população o material particulado liberado pelas queimadas, uma vez que o mesmo, nesses dias, fica aprisionado na baixa atmosfera, que é a camada onde vivemos.

As pesquisas utilizam dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Sistema Único de Saúde (SUS). “Temos dados meteorológicos históricos de Monte Alegre, Óbidos, Porto de Moz e Belterra. Já os de Santarém são recentes, porque não havia estação do INMET no município”, explica.

Segundo Ana Carla Gomes, muitos trabalhos na literatura científica utilizavam dados climáticos de Belterra como sendo de Santarém. “Ambos os municípios possuem características semelhantes, mas o comportamento das variáveis meteorológicas não é idêntico, ou seja, não retrata nossa realidade”, afirma. “Precisamos entender que estudar a microescala é extremamente importante para uma região tão grande como a nossa, principalmente porque os impactos locais são diferentes”.

Confira os artigos publicados pelo grupo:

 

 

Maria Lúcia Morais - Comunicação/Ufopa

Foto do banner rotativo: Edvaldo Pereira

13/6/2019

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