Ultima atualização em 4 de Fevereiro de 2026 às 18:08
“A gestão ambiental precisa fluir como um rio”
As bacias hidrográficas devem ser a base para a gestão territorial. A resposta é uma das mensagens centrais do projeto “Águas para a vida: Diagnóstico Socioambiental como estratégia de fortalecimento territorial da bacia do Paissandu, PAE Lago Grande de Santarém - PA”, do Grupo de Estudos Avançados em Gestão Ambiental da Amazônia (GEAGAA), ligado ao Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA) da Ufopa.
Para o professor João Paulo de Cortes, que coordena a pesquisa, a abordagem com centralidade nas bacias permite um planejamento ambiental e territorial mais eficiente. “A forma natural de organização de território é a partir de suas águas e do relevo que as acolhe”, explica.
O projeto foi desenvolvido a partir de 2024 com a parceria dos comunitários que participaram ativamente de todas as etapas. “Desde a apresentação da demanda para a universidade, a definição dos pontos de coleta, reconhecimento de campo, coleta de amostras em campo, análises em laboratório, discussão dos resultados e produção dos materiais. Isso ocorreu por meio de oficinas, circulação de textos e assembleias, ou seja, o projeto inteiro foi desenvolvido de forma participativa”, disse o coordenador.
Maria das Graças Almeida, 58 anos, é enfermeira, nasceu e hoje vive e trabalha na comunidade do Paissandu, cujos pais foram fundadores da comunidade, participou da pesquisa auxiliando os coordenadores a definir estratégias: “Foi muito gratificante participar do trabalho e principalmente saber como está a bacia hidrográfica da nossa região”. Ela relembra os momentos difíceis que viveram com as últimas secas: “Ficamos sem estrada, sem condições de viajar de barco, as pessoas eram transportadas por embarcações no meio da lama. Tudo bem diferente de quando eu era criança”.
Para os pesquisadores, uma questão crucial é entender como as comunidades amazônicas podem ser fortalecidas para o enfrentamento de crises. Pelo relato de Dona Graça, é possível perceber como comunidades estão vulneráveis às mudanças climáticas e secas extremas como as ocorridas em 2023 e 2024.
“A pesquisa foi conduzida a partir de uma perspectiva de ciência participativa aplicada ao fortalecimento territorial, envolvendo moradores, lideranças e organizações comunitárias. O objetivo foi não apenas descrever a situação socioambiental, mas também fortalecer estratégias locais de gestão e conservação da bacia”, afirmam os pesquisadores.
Além disso, foram aplicadas metodologias de mapeamento participativo, integrando conhecimentos locais sobre o uso e disponibilidade da água, degradação ambiental, práticas tradicionais de manejo e efeitos dos eventos extremos. Como parte do compromisso com a apropriação dos resultados, foram elaborados materiais acessíveis e didáticos, como cartilhas, mapas, maquetes em 3D e realidade aumentada, garantindo que as informações geradas permanecessem ao alcance da comunidade. Os materiais foram doados às escolas e lideranças do território para subsidiar as ações de ensino e mobilização social dentro do PAE Lago Grande.
“A partir dos resultados alcançados, o primeiro produto elaborado foi o Relatório de Recomendação de Políticas Públicas (policy brief) indicando possíveis caminhos para o fortalecimento das comunidades e povos tradicionais para o enfrentamento da crise climática, a partir de demandas centradas no território, como avanço da questão fundiária, saneamento e garantias de direitos fundamentais para essas comunidades”, conclui Cortes.
Sobre o assentamento: O Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, em Santarém (PA), foi criado em 2005 e abriga cerca de 6.600 famílias distribuídas em 154 comunidades. É um dos maiores assentamentos desse tipo no Brasil. Apesar de reconhecimento oficial, o território enfrenta pressões crescentes devido à exploração mineral e madeireira; a expansão do agronegócio e a conflitos relacionados à pesca predatória. A situação é agravada pela falta de regularização fundiária. Os moradores aguardam desde 2005 que o Incra emita o Contrato de Concessão e Direito Real de Uso (CCDRU). A falta desse documento limita o acesso dos comunitários a políticas públicas essenciais. A comunidade de Paissandu, localizada no Médio Lago Grande, próxima ao distrito de Curuai, tem na agricultura familiar, pesca, extrativismo e pecuária suas principais atividades econômicas.
A pesquisa constatou uma significativa mudança no uso do solo nos últimos quarenta anos. “Desde 1985, a bacia do Paissandu perdeu uma área de floresta equivalente a 921 campos de futebol. A partir de 2005, ano de criação do PAE, observamos uma mudança na trajetória de degradação com uma ligeira recuperação da cobertura nativa e aumento na área ocupada pela comunidade, reforçando os padrões observados pela cartografia social”, informa o policy brief, lançado oficialmente durante o evento Pré-COP30 realizado no PAE Lago Grande pelo coletivo Guardiões do Bem-Viver.
Reconhecimento internacional: O projeto será apresentado no evento Adaptation Future 2025, que ocorrerá de 13 a 16 de outubro de 2025 em Otautahi Christchurch, Nova Zelândia. A Adaptation Futures 2025 é a 8.ª edição bienal da principal conferência internacional dedicada exclusivamente à adaptação às mudanças climáticas, organizada sob o programa da ONU World Adaptation Science Programme (WASP). No dia 14 de outubro, o professor João Paulo de Cortes integrará o painel "The Nexus of Food, Water, Climate, and Community: Freshwater Fishing Adaptation Strategies", destacando como as estratégias de adaptação da pesca em água doce podem fortalecer comunidades diante das mudanças climáticas.
O documento de Recomendação de Políticas Públicas (policy brief) está disponível (AQUI).
Texto: Lenne Santos – Ascom/Ufopa
Fotos: Acervo do projeto
18/08/2025