Ultima atualização em 8 de Maio de 2026 às 09:27
Na Ufopa, pesquisadoras mães são assistidas com mecanismo de equidade.
A produção científica em suas formas de avaliação pode parecer incompatível com as exigências da maternidade, mas, ao contrário, estas são escolhas que podem seguir juntas quando a sociedade compreende que ser mãe não é uma decisão que exclui o potencial intelectual e profissional da mulher.
Nos espaços acadêmicos, os prazos, publicações, aulas, orientações, indicadores de impacto e avaliações constantes são dinâmicas rígidas que exigem continuidade e regularidade. Enquanto isso, a maternidade rompe essa dinâmica. Há os imprevistos, as descontinuidades, as novas prioridades e, assim, o tempo precisa ser reorganizado.
Dayse Santana Vieira é professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) no Campus Juruti. Engenheira agrônoma com mestrado e doutorado na área de Genética e Biologia Molecular (Uesc/BA), a docente tem uma vida profissional com muitas atividades ligadas à produção acadêmica. Para ela, que se tornou mãe por via da adoção de duas crianças, de 5 e 7 anos, a maternidade e a pesquisa exigem viver diariamente o desafio de conciliar diferentes e intensas responsabilidades: “A maternidade exige presença, cuidado, atenção emocional e dedicação diária, enquanto a carreira acadêmica requer produtividade, organização, orientação de estudantes, elaboração de projetos, correções de trabalhos acadêmicos, publicações científicas e participação em diversas atividades institucionais”.
Sendo mãe por adoção, Dayse Santana também ressaltou a particularidade da construção de vínculos afetivos muito profundos, baseados no acolhimento, na presença, na confiança e no amor diário. “Nesse contexto, muitas vezes é necessário reorganizar rotinas, abdicar de momentos pessoais e, em algumas situações, abrir mão de projetos e oportunidades profissionais para priorizar as demandas da maternidade”.
A professora Luana Rodrigues, farmacêutica bioquímica, com mestrado em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários (UFPA) e doutorado em Medicina Tropical (Fiocruz/RJ), atua no Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa e é mãe de duas crianças, com 7 e 2 anos. Para ela, além da conciliação da maternidade com a produção acadêmica, um grande desafio que se apresenta de forma evidente é a desigualdade de gênero em relação à parentalidade, principalmente nas responsabilidades entre pais e mães.
No campo acadêmico, segundo professora Luana, os desafios se desdobram em situações diversas, como “conseguir se credenciar em um programa de pós-graduação, considerando que maternidade na vida da mulher implica a redução temporária de sua produção acadêmica; manter-se na carreira de pesquisadora, enquanto docente permanente de programa de pós-graduação; e almejar avanço nessa carreira buscando alcançar cargos atrelados a posições de liderança, como a coordenação de projetos/propostas institucionais, e participação em cargos de gestão relacionados a pesquisa e inovação”.
Equidade na Ufopa
A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), reconhecendo a realidade desafiadora das mães no universo da produção científica, vem promovendo políticas afirmativas que buscam nivelar o campo de atuação para mulheres cientistas.
O grande marco dessa mudança de paradigma na Ufopa é a resolução do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) n.º 361, de 10 de julho de 2021, que aprovou a política e as normas gerais para o funcionamento das atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação na instituição.
O documento, no artigo 10, em seu parágrafo 3.º, regulamenta que, em caso de pesquisadoras parturientes ou puérperas, a avaliação da pontuação relacionada à produção intelectual abrangerá um período estendido dos últimos sete anos, e não apenas o padrão de cinco anos.
Na opinião da professora Dayse Santana, a medida é um avanço importante no reconhecimento dos desafios impostos à trajetória acadêmica das mulheres que se tornam mães: “É importante destacar que toda a rotina acadêmica é impactada. Especialmente nos primeiros anos, seja na maternidade biológica ou adotiva, muitas pesquisadoras acabam reduzindo temporariamente sua produtividade científica, não por falta de comprometimento, mas porque estão emocional e fisicamente muito demandadas pelas novas responsabilidades relacionadas ao cuidado e à adaptação familiar. Assim sendo, a ampliação do período de avaliação torna o processo mais justo e mais sensível às realidades vividas pelas mães pesquisadoras”.
Professora Luana reforçou a importância da iniciativa da Ufopa como mecanismo institucional de equidade porque “corrige distorções causadas pela maternidade na trajetória acadêmica”, e acrescentou que a medida deve ser considerada como um direito fundamental assegurado. Além disso, a docente apontou a necessidade de mecanismos compensatórios para a maternidade atípica, sendo desenvolvidos como política institucional.
Pontuação diferenciada nos editais Pibic e Pibiti
Desde 2022, os editais de concessão de cotas de bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti) da Ufopa têm pontuação diferenciada para pesquisadoras parturientes ou puérperas.
Nos processos mais recentes, os editais n.º 03/2025 (Pibic) e n.º 04/2025 (Pibiti), a regra foi aplicada. Os documentos atestam que, para a avaliação da carga horária e concessão das cotas de planos de trabalho, as unidades devem adotar os critérios de produtividade dos últimos cinco anos, sendo que, para o público das pesquisadoras parturientes ou puérperas no período de 2018 a 2023, o cálculo do Índice de Produtividade Individual (IPI) se expande para o período de 2018 a 2024.
Nessa perspectiva, professora Luana informou que a medida refletiu de forma muito positiva: “Alguns avanços já são observados, por exemplo, nos editais n.º 03 e n.º 04/2025 da Proppit, que considerou a ampliação da janela temporal de avaliação proporcional”. Além disso, a docente reforçou a necessidade de institucionalização para que a medida seja aplicada a todos os demais editais da universidade, com divulgação potencializada em todas as unidades acadêmicas.
Professora Luana tem duas alunas de Pibic dentro do projeto de pesquisa que coordena sobre saúde da mulher: “Aceitabilidade da autocoleta cervicovaginal na determinação da prevalência de Papilomavírus humano (HPV) e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) em mulheres portadoras ou não do Vírus da imunodeficiência humana 1 (HIV-1) vivendo nas regiões Baixo Amazonas e Tapajós, Amazônia, Brasil”.
Professora Dayse também desenvolve projeto junto ao Pibic relacionado à cultura dos citros na região do Baixo Amazonas. Além disso, atua em parceria com outros docentes e pesquisadores, contribuindo no desenvolvimento de projetos em diferentes áreas das Ciências Agrárias.
São projetos diversos, nas mais variadas áreas do conhecimento, desenvolvidos por muitas mulheres que assumem essa dupla responsabilidade como mães e cientistas. A maternidade proporciona um olhar mais sensível para a produção acadêmica. Nas palavras da professora Dayse, “a maternidade fortalece a sensibilidade, a empatia e a capacidade de compreender que por trás da produção científica existem pessoas, histórias e realidades diferentes. Isso nos torna profissionais mais humanas, mais conscientes e mais próximas das necessidades da sociedade”.
Permanência materna: Além das medidas adotadas nos editais de pesquisa, a Ufopa também instituiu a Política Materna e Parental, aprovada pelo Conselho Universitário em 2025, que estabelece ações voltadas à permanência, à equidade e ao acolhimento de mães, pais e responsáveis no ambiente acadêmico, reconhecendo os impactos da maternidade na trajetória profissional e científica das pesquisadoras. A política prevê mecanismos de apoio à maternidade e à parentalidade no ensino, na pesquisa e na extensão, incluindo ações afirmativas, estudos domiciliares, apoio institucional e medidas que consideram os impactos dos cuidados parentais na trajetória acadêmica, fortalecendo a valorização da equidade de gênero na Universidade.
Rosa Rodrigues – Ascom/Ufopa
07/05/2026