Ultima atualização em 27 de Abril de 2026 às 19:33
Iniciativa propõe nova forma de preservar conhecimentos indígenas.
Nascido a partir de um projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), liderado pela antropóloga e Profa. Dra. Camila Jácome, o Museu Vivo Indígena foi inaugurado nesta segunda-feira, 27, no Campus Oriximiná como resultado de uma construção coletiva entre universidade e povos indígenas da região do rio Trombetas. Implantado no território Wayamu, o espaço propõe uma nova forma de pensar a memória, de modo que os saberes tradicionais não são apenas preservados, mas vividos, compartilhados e continuamente recriados no cotidiano das comunidades.
A iniciativa mobilizou mais de 60 pessoas, em sua maioria indígenas, em um processo coletivo que resultou na construção da Umaná, casa tradicional do povo Wai Wai que abriga o museu. A estrutura foi erguida por mestres da arquitetura indígena vindos das aldeias, com uso de materiais naturais coletados de forma sustentável, como folhas de ubim e outras espécies da região. O trabalho contou ainda com participação expressiva de mulheres, especialmente nas etapas de tecelagem da cobertura e acabamento do espaço.
Articulado no âmbito da extensão universitária, o projeto contou com o apoio da associação dos povos indígenas da região do Mapuera, presidida pelo antropólogo Roque Wai-Wai, egresso da Ufopa e atualmente doutorando na instituição. A construção também envolveu outros egressos da universidade, consolidando a relação entre formação acadêmica e atuação nos territórios indígenas.
Investimento: Com investimento aproximado de R$ 156 mil, os recursos foram aplicados na aquisição de materiais, logística e remuneração das pessoas envolvidas. O museu dá continuidade a uma trajetória de pesquisa coordenada pela professora Camila Jácome, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que incluiu a realização de oficinas com as comunidades para definir, a partir de suas próprias perspectivas, o conceito e o formato do espaço museológico.
Para a idealizadora do projeto, professora Camila Jácome, “a construção do museu é fruto de um processo coletivo que começou ainda nas oficinas, quando discutimos o que é um museu a partir da perspectiva dos próprios povos indígenas. Esse espaço nasce dessa escuta e dessa construção conjunta. Chamamos de museu vivo porque não se trata apenas de guardar objetos, mas de manter o conhecimento nas pessoas, nos processos e nas práticas”.
Jácome lembra que sua parceria de pesquisa com o povo Wai Wai remonta há mais de uma década: “Essa relação começou no doutorado e já soma 16 anos de trabalho conjunto. O museu representa a continuidade desse processo, agora materializado em um espaço que também é resultado de investigação, registro e vivência”.
Mais do que um espaço físico, o Museu Vivo Indígena propõe uma ruptura com modelos tradicionais de museus, onde os objetos são isolados e preservados de forma estática. No novo espaço, os saberes são compartilhados de forma dinâmica, envolvendo sons, práticas, histórias e tecnologias tradicionais das diferentes etnias que compõem os territórios Nhamundá-Mapuera e Trombetas.
A reitora da Ufopa, Profa. Dra. Aldenize Ruela Xavier, participou da inauguração e destacou a importância de iniciativas que valorizam os povos tradicionais: “Projetos como este evidenciam o papel da universidade pública no diálogo com os territórios e no reconhecimento do protagonismo indígena na produção de conhecimento. O Museu Vivo Indígena contribui para caminhos mais inclusivos e conectados com a realidade amazônica”.
A diretora do Campus Oriximiná, Profa. Dra. Dávia Talgatti, lembrou que “o museu foi construído pelas mãos dos nossos indígenas da região, e é motivo de grande alegria recebê-lo em Oriximiná. Essa parceria fortalece a valorização dos saberes tradicionais e aproxima ainda mais a universidade das comunidades”.
A expectativa, segundo Camila Jácome, é ampliar o projeto com novas etapas, entre elas a realização de uma exposição sobre o processo de construção da Umaná e do próprio museu: “Apesar dos avanços, ainda buscamos apoio financeiro e logístico para viabilizar essa fase. Queremos apresentar ao público todo o percurso, da construção da casa ao conceito do museu, e dar continuidade a esse trabalho com novos parceiros”.
Programação: A inauguração foi marcada por momentos de diálogo, apresentação de resultados e manifestações culturais. Pela manhã, houve recepção dos participantes, seguida de apresentação do projeto e prestação de contas. Em seguida, ocorreu uma assembleia para discutir os objetivos do museu, oficializar sua fundação e definir sua organização. Após o intervalo para almoço, as atividades foram retomadas no período da tarde com nova recepção, composição da mesa e falas de autoridades, caciques e representantes. O evento foi encerrado com apresentações culturais, reunindo diferentes expressões dos povos indígenas da região.
Texto: Albanira Coelho – Ascom/Ufopa
Foto: Tarely Aguiar
27/04/2026