Ultima atualização em 29 de Maio de 2026 às 19:08
Parceria visa à implementação do “Projeto Tapajós: Trechos Comunitários”, voltado ao desenvolvimento comunitário em áreas garimpeiras da bacia do rio Tapajós, no Pará.
A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a Fundação de Integração Amazônica (Fiam) e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) no Brasil formalizaram uma parceria para a implementação do projeto "Tapajós: Trechos Comunitários”. A iniciativa é voltada à promoção de direitos, do trabalho digno, de cadeias produtivas sustentáveis e do desenvolvimento comunitário em garimpos da bacia do rio Tapajós, no Pará.
A assinatura do convênio ocorreu durante o seminário “Projeto Tapajós: Trabalho, Direitos e Diversificação de Cadeias Econômicas em Comunidades Garimpeiras do Tapajós”, realizado na última quinta-feira, 28 de maio, no auditório da Unidade Tapajós, em Santarém (PA). Participaram do ato a reitora da Ufopa, Aldenize Ruela Xavier; a diretora do UNODC no Brasil, Elena Abbati; o diretor técnico da Fundação de Integração Amazônica (Fiam), Luiz Paulo Castro de Assis; e o coordenador local do projeto, Carlos de Matos Bandeira Júnior.
“O momento de hoje vai muito além da assinatura de um acordo institucional. Ele representa um compromisso coletivo com a construção de soluções concretas para uma região marcada por enormes riquezas, mas também por desafios igualmente complexos”, afirmou a diretora do UNODC no Brasil, Elena Abbati, durante a solenidade.
“A presença territorial, a legitimidade institucional e o compromisso da universidade com o ensino, a pesquisa e a extensão tornam esta colaboração especialmente promissora para a região, reforçando um modelo de desenvolvimento pautado pela dignidade humana, pelo trabalho justo e pela preservação da biodiversidade”, acrescentou.
“É muito bom perceber que a universidade, por meio dessas ações, passa a atuar cada vez mais firmemente em seu compromisso e em sua missão institucional. Nossa missão não é apenas a formação acadêmica, mas uma formação acadêmica comprometida com o desenvolvimento social da região”, afirmou a reitora da Ufopa, Aldenize Xavier.
Aberto ao público, o evento reuniu especialistas de diversas áreas, como Direito, Antropologia, Economia, Saúde e Meio Ambiente, além de estudantes, lideranças comunitárias e representantes do Ministério Público do Trabalho. O objetivo foi discutir os desafios enfrentados pelas comunidades garimpeiras da bacia do rio Tapajós, como danos ambientais, alto custo de vida, ausência de políticas públicas, condições precárias ou degradantes de trabalho e exploração sexual infantojuvenil, entre outros.
Outro destaque do evento foi o lançamento da Clínica de Promoção ao Trabalho Digno e Justo da Ufopa, que tem como objetivo oferecer orientação, acolhimento e acompanhamento jurídico gratuito a pessoas e comunidades em situação de vulnerabilidade social. Parceira do projeto "Tapajós: Trechos Comunitários”, a iniciativa é coordenada pela professora Judith Costa Vieira, do curso de Direito da Ufopa.
Convênio
“Hoje lançamos duas iniciativas concretas. A primeira é um programa de geração de renda voltado ao desenvolvimento sustentável na área de proteção ambiental do Tapajós. Temos a convicção de que prevenir a exploração dos trabalhadores também significa ampliar oportunidades de trabalho e renda”, afirmou Elena Abbati durante a solenidade de assinatura do convênio com a Ufopa.
Segundo a diretora do UNODC no Brasil, a universidade desempenha um papel singular ao produzir conhecimento, formar pessoas e transformar realidades. “É justamente nesse encontro entre pesquisa, ensino e extensão que a parceria com a Ufopa ganha tanta força e significado para o UNODC. Hoje damos mais um passo importante nessa trajetória”, destacou.
“Esse convênio é muito importante porque possibilita a transferência de recursos do UNODC para a Fiam, fundação de apoio da Ufopa, já que se trata de um convênio tripartite. Até o momento, aproximadamente R$ 740 mil já foram transferidos para o desenvolvimento das ações iniciais do projeto e das atividades da Clínica de Promoção ao Trabalho Digno e Justo da Ufopa”, explicou o coordenador local do projeto, Carlos de Matos Bandeira Júnior. “O convênio também nos aproxima de outros órgãos para conseguirmos captar mais recursos e desenvolver ações voltadas ao contexto amazônico, que exige investimentos elevados”, acrescentou.
Projeto
O projeto de extensão “Tapajós: Trechos Comunitários” tem como objetivo capacitar comunidades garimpeiras da bacia do Médio Tapajós para promover ações voltadas ao trabalho digno associado à mineração de ouro, fortalecendo organizações locais e incentivando meios de vida alternativos, inclusivos e ambientalmente responsáveis. A iniciativa envolve professores e bolsistas da Ufopa e também se articula com outros projetos de extensão para levar conhecimento e informação às comunidades.
O projeto contempla quatro eixos principais:
Socioeconomia – Prof. Dr. Felipe de Lima Bandeira, do Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA);
Produção Agroflorestal – Profa. Dra. Daniela Pauletto, do Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef);
Saúde Mental e Assistência Social – Profa. Ma. Eloísa Amorim de Barros, do Instituto de Saúde Coletiva (Isco);
Clínica de Promoção ao Trabalho Digno e Justo da Ufopa – Profa. Dra. Judith Costa Vieira, do Instituto de Ciências da Sociedade (ICS).
Inicialmente, o projeto atuará nas comunidades garimpeiras de Água Branca e Creporizão, no município de Itaituba (PA). O objetivo é criar alternativas econômicas sustentáveis por meio da implantação de sistemas agroflorestais, viveiros comunitários e hortas pedagógicas capazes de gerar renda e contribuir para a segurança alimentar local.
“Já fomos duas vezes às comunidades. Primeiro realizamos um diagnóstico participativo, com conversas com os moradores, para entender quais ações podemos desenvolver de forma efetiva e com o apoio deles. Precisamos dessa participação da comunidade”, explicou Carlos Bandeira. “A partir de agora, já estamos trabalhando nos canteiros produtivos nas escolas. Vamos envolver a escola e os moradores nas formações voltadas à agricultura familiar”.
Entre os objetivos específicos da iniciativa estão o fortalecimento das capacidades de organizações comunitárias e lideranças locais, com foco especial em mulheres e jovens; a promoção de processos formativos e acompanhamento psicossocial voltados à cidadania e aos direitos humanos; o desenvolvimento de diagnósticos participativos e planos operacionais para cadeias produtivas sustentáveis; a implantação de projetos-pilotos de alternativas econômicas, como hortas, viveiros, sistemas agroflorestais e iniciativas de bioeconomia; e o incentivo à resiliência socioeconômica por meio da diversificação produtiva e do associativismo.
Expectativa
“Tenho uma expectativa muito grande. Nunca tive tanta expectativa quanto estou tendo agora”, afirmou Francisco Dias Silva, presidente da comunidade Água Branca, localizada a 400 quilômetros da sede do município de Itaituba (PA). “Desde o momento em que tomei conhecimento do projeto, quando os professores foram nos visitar e apresentar essa proposta, abraçamos a ideia e estamos de braços abertos para executar esse projeto em nossa comunidade”.
Morador da comunidade há quase 30 anos, Francisco Silva, também conhecido como Seu França, já foi garimpeiro e comerciante ligado ao garimpo. Atualmente, é vice-presidente da Cooperativa de Extração Mineral do Água Branca (Coemiabra), entidade que ajudou a fundar em 2013. “Como cooperativa, estamos lutando pela legalização para que nosso povo possa trabalhar de forma regular, sem preocupações relacionadas aos impactos ambientais. Nossa cooperativa está 100% legalizada e apta para regularizar a área de atuação dos garimpeiros. Estamos otimistas porque já avançamos bastante nesse processo”.
Segundo Francisco Silva, a comunidade de Água Branca possui cerca de 720 famílias. Atualmente, a localidade conta com escola, posto de saúde e energia elétrica. “Na comunidade circulam cerca de três mil pessoas por dia, porque ela funciona como um polo regional. Muitas pessoas passam por lá para comprar utensílios de trabalho e mantimentos”.
Texto e fotos: Maria Lúcia Morais – Ascom/Ufopa
29/05/2026
Notícia relacionada: