Ultima atualização em 5 de Novembro de 2026 às 08:55
Evento na Ufopa marcou a assinatura de compromissos entre instituições brasileiras e francesas e organizações dos territórios amazônicos.
A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) lançou nesta quarta-feira, 4 de novembro, o Laboratório Misto Internacional (LMI) AGORA – "Governança Transformadora e Monitoramento Comunitário pela Reexistência na Amazônia". A iniciativa busca aproximar a pesquisa científica das necessidades dos povos e comunidades tradicionais.
A cerimônia de lançamento ocorreu no Auditório Wilson Fonseca, na Unidade Rondon, em Santarém (PA), com a assinatura de um termo simbólico de compromisso entre a Ufopa, a Universidade de Brasília (UnB) e o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França, além de uma carta de intenção com organizações dos territórios amazônicos.
O LMI AGORA reúne cerca de 60 pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e representantes de organizações comunitárias. Aprovado em março de 2026, o laboratório terá duração inicial de sete anos e desenvolverá pesquisas e ações voltadas à proteção dos territórios, ao monitoramento ambiental, à valorização dos saberes tradicionais e à construção de políticas públicas para a Amazônia.
A coordenação é compartilhada pela professora Wandicleia Lopes de Sousa, do Campus Alenquer da Ufopa; professora Stéphanie Nasuti, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB; e pesquisadora Marie-Paule Bonnet, do IRD. Com o lançamento, as instituições parceiras e as organizações comunitárias dão início a uma nova etapa de cooperação científica, voltada à produção compartilhada de conhecimentos e ao fortalecimento das iniciativas de defesa dos territórios amazônicos.
Solenidade
A cerimônia reuniu representantes das instituições parceiras, autoridades públicas, pesquisadores, estudantes e lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas, de pescadores artesanais, agricultores familiares e movimentos sociais. O lançamento também integrou as comemorações dos 17 anos da Ufopa, celebrados em 5 de novembro.
Representando a Gestão Superior da Ufopa, a vice-reitora Solange Ximenes destacou que a criação do laboratório está alinhada à proposta de formação interdisciplinar e intercultural da universidade, baseada no diálogo com os diferentes territórios e na construção coletiva do conhecimento.
Para a vice-reitora, o LMI AGORA representa um avanço na relação entre universidade e comunidades, ao propor pesquisas que tenham os povos amazônicos como protagonistas, desde a definição das prioridades até a produção dos resultados. "Eu vejo que o LMI AGORA promove uma perspectiva de pesquisa das comunidades, então vai carregar essa identidade desses territórios", afirmou.
Solange Ximenes também destacou a importância da cooperação internacional para ampliar a atuação científica da Ufopa e fortalecer sua presença no Oeste do Pará. Segundo ela, a iniciativa poderá servir de referência para outras experiências de pesquisa, ao promover relações mais equilibradas entre instituições e comunidades. A vice-reitora reafirmou o compromisso institucional de apoiar projetos dessa natureza, que aproximam a formação acadêmica das necessidades sociais e ambientais da região.
Cooperação científica internacional
Em nome da UnB, a decana de Pesquisa e Inovação, Renata Aquino da Silva, destacou que o laboratório representa um compromisso institucional com a produção de conhecimentos voltados à defesa dos territórios amazônicos. Segundo ela, a parceria entre Ufopa, UnB e IRD permitirá reunir experiências em pesquisa interdisciplinar, monitoramento comunitário, gestão da água e mudanças climáticas, com a participação de quem vive diariamente nos territórios. "A Amazônia não é apenas um território a ser estudado de fora. É um território vivo, com saberes, com lutas, com futuro", afirmou.
Renata ressaltou que as comunidades devem participar das decisões sobre as pesquisas, em vez de atuar apenas como fontes de informação. Também defendeu que os resultados científicos contribuam para a proteção ambiental e para a elaboração de políticas públicas.
O diretor do IRD no Brasil, Abdelfettah Sifeddine, reconheceu o trabalho desenvolvido pelas três coordenadoras para reunir instituições e organizações comunitárias na construção do laboratório. Em seu pronunciamento, valorizou a participação das juventudes e dos povos amazônicos na produção científica, destacando a importância de reconhecer os conhecimentos adquiridos nas experiências cotidianas das comunidades.
Já o diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, Carlos Hiroo Saito, abordou as mudanças na relação entre universidade e sociedade. Segundo ele, a pesquisa científica passou de uma abordagem centrada no estudo das comunidades para uma construção conjunta, na qual pesquisadores e moradores compartilham conhecimentos e decisões. "A gente precisa colocar a ciência ao lado deles e o conhecimento deles ao lado da ciência", defendeu.
Para o pesquisador, os problemas enfrentados pelos territórios exigem a integração de diferentes áreas do conhecimento, além do reconhecimento dos saberes tradicionais, especialmente diante das mudanças climáticas.
Participação das comunidades
Um dos pontos centrais do lançamento foi a participação das organizações comunitárias na construção das prioridades do LMI AGORA. Durante a mesa "Conexões e saberes para a defesa dos territórios coletivos da Amazônia", lideranças apresentaram demandas relacionadas à proteção ambiental, à garantia de direitos e à participação nas decisões sobre pesquisas e projetos desenvolvidos em seus territórios.
A vice-presidente do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), Rosângela Tapajó, chamou a atenção para os impactos das mudanças ambientais sobre as comunidades indígenas, citando alterações na temperatura das águas dos igarapés e nas condições de vida dos moradores. "Quando falamos o que queremos para o nosso território, estamos falando de respeito, dignidade e futuro. Queremos um território onde o povo seja ouvido, onde nossa liderança tenha voz", declarou.
A liderança indígena defendeu ações voltadas à proteção das florestas e dos rios, ao fortalecimento da educação e da saúde indígenas, à participação das mulheres e dos jovens e à geração de oportunidades econômicas sustentáveis. Também pediu que as discussões realizadas na universidade sejam levadas às comunidades e transformadas em ações concretas.
Representando o Conselho de Pesca do Arapixuna, Cristina Pinto destacou os desafios enfrentados pelos pescadores artesanais, especialmente os impactos da redução da disponibilidade de água, das mudanças ambientais e de atividades que afetam os rios e os recursos pesqueiros.
Ela defendeu a realização de pesquisas sobre a qualidade da água e seus efeitos sobre a pesca e a saúde das comunidades. Também mencionou estudos sobre a presença de mercúrio no organismo de pescadores e a necessidade de ampliar o conhecimento científico sobre os problemas que afetam o sustento das famílias.
O representante do coletivo Guardiões do Bem-Viver, Marlon Rebelo Gama, ressaltou a importância de reconhecer os saberes tradicionais como parte da produção do conhecimento. Segundo ele, as comunidades acumulam experiências sobre o ciclo das chuvas, o movimento das águas, o comportamento dos peixes e os períodos de plantio e colheita. "A gente não quer ser somente um objeto de pesquisa. A gente quer ser parte dessa pesquisa", afirmou.
Marlon também defendeu que os jovens que ingressam na universidade mantenham os vínculos com suas comunidades de origem e contribuam para compartilhar os conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica.
O representante da Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Diego Campos, destacou a necessidade de estabelecer relações horizontais entre pesquisadores e comunidades, respeitando a autonomia dos povos tradicionais. Também defendeu que os resultados das pesquisas sejam apresentados e discutidos com os moradores dos territórios.
Pesquisas e áreas de atuação
Durante a apresentação do LMI AGORA, as coordenadoras explicaram que o laboratório funcionará como uma rede de cooperação científica entre instituições e organizações comunitárias, articulando projetos e experiências já desenvolvidos na Amazônia.
A professora Wandicleia Lopes de Sousa apresentou o processo de construção da proposta, iniciado antes de sua aprovação em 2026. Segundo ela, o laboratório resulta de uma trajetória de colaboração entre pesquisadores, universidades e organizações dos territórios, que participaram da definição dos objetivos e das áreas de atuação.
As atividades terão como referência três regiões amazônicas: a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas; Santarém e o Baixo Amazonas, no Pará; e o Nordeste paraense.
O laboratório está estruturado em seis eixos de atuação, que abrangem a produção conjunta de conhecimentos, o monitoramento ambiental, o diálogo entre diferentes saberes, a inovação em defesa territorial, o apoio à formulação de políticas públicas e o compartilhamento de dados e resultados científicos.
Entre os temas previstos estão água, clima, sociobioeconomia e transformações sociais e ambientais. A proposta também inclui atividades de formação, oficinas, intercâmbios entre territórios e desenvolvimento de ferramentas de monitoramento comunitário.
Outro encaminhamento apresentado pelas coordenadoras é a criação de um Colegiado de Acompanhamento, com representantes das instituições parceiras e das organizações comunitárias. O objetivo é garantir a participação dos territórios na definição das prioridades, no acompanhamento das pesquisas e na avaliação dos resultados.
Assinatura de compromissos
A cerimônia foi marcada pela assinatura de dois documentos relacionados à implantação do LMI AGORA. O primeiro foi o Termo Simbólico de Compromisso e Cooperação Institucional, firmado por representantes da Ufopa, da UnB e do IRD. Participaram da assinatura a vice-reitora Solange Ximenes, a decana Renata Aquino da Silva e o diretor do IRD no Brasil, Abdelfettah Sifeddine. O documento reafirma o compromisso das três instituições com a construção conjunta do laboratório. O instrumento formal de cooperação institucional ainda está em elaboração e deverá seguir os trâmites administrativos das instituições envolvidas.
Também foi assinada uma Carta de Intenção de Cooperação entre o LMI AGORA e organizações participantes dos territórios amazônicos. O documento foi elaborado coletivamente durante as atividades realizadas nos dias 3 e 4 de novembro, na Fazenda Experimental da Ufopa, situada na Rodovia Curuá-Una, em Santarém.
A carta estabelece princípios para orientar a atuação do laboratório, como a defesa dos direitos territoriais, o respeito à autonomia das comunidades, a valorização dos conhecimentos tradicionais e a participação dos povos amazônicos nas decisões sobre as pesquisas.
O documento também prevê o respeito aos protocolos comunitários de consulta e autorização para a realização de atividades nos territórios, além do compromisso de compartilhar os resultados científicos em formatos acessíveis às populações participantes.
Outro ponto é a valorização da participação de mulheres, jovens e pessoas idosas na produção de conhecimentos e na construção de alternativas para o desenvolvimento dos territórios. A carta servirá de referência para as relações de cooperação e para a governança do laboratório. Os acordos formais com as organizações e o regulamento do colegiado deverão ser elaborados posteriormente.
Texto e fotos: Maria Lúcia Morais – Ascom/Ufopa
04/11/2026
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