Desculpe, o seu navegador não suporta JavaScript!
Buscar somente nesse site.

Universidade Federal do Oeste do Pará

Cientistas da Ufopa pesquisam componentes biológicos presentes no ar do centro de Santarém


27 de Março de 2018 às 10:09

Você já parou para pensar na qualidade do ar que respira? Considerando que o ar é composto por uma diversidade de substâncias químicas, além da poluição atmosférica, você pode estar respirando componentes biológicos, ou seja, fungos e bactérias. Isso mesmo, a presença de fungos e bactérias no ar é mais comum do que podemos imaginar. É o que tem sido detectado por biólogas da Universidade federal do Oeste do Pará (Ufopa) através do projeto “Microbiota do ar de áreas urbanas de Santarém".

O projeto “Microbiota do ar de áreas urbanas de Santarém”, desenvolvido pelas biólogas Graciene Fernandes e Eveleise Canto, ambas lotadas no Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA), está estudando a diversidade microbiana (fungos e bactérias) presente no ar de áreas urbanas do centro de Santarém. Estudos preliminares detectaram a presença de fungos e bactérias em algumas áreas nas quais é feita a coleta. “Partimos da hipótese de que a diversidade microbiana aérea sofre interferência da movimentação de pessoas, de carros e da presença de animais no espaço. Com todas essas variáveis, aliadas a questões climáticas e atmosféricas, a diversidade de microrganismo do ar pode ser alterada”, alertou a Profa. Graciene Fernandes.

A presença de garças em áreas urbanas do município pode piorar, ainda mais, o ar que estamos respirando, principalmente nas áreas centrais, onde os estudos estão sendo realizados. Outros animais também podem ter o mesmo papel. A afirmação é da bióloga Eveleise Canto: “Nos períodos do ano em que as garças são mais incidentes, é possível perceber que o ar fica muito carregado. Portanto, há necessidade de estudos relacionados a isso”. A bióloga informou também que, além da diversidade, também é possível observar a produção de micotoxinas (toxinas produzidas por fungos): “Também podemos verificar a presença de patógenos fúngicos como o Cryptococcos, o qual é causador da doença criptococose, que pode ser ocasionada pela inalação de propágulos ressecados do fungo presente nas fezes das aves”.

As coletas são realizadas em dois períodos: na época de seca e na estação das chuvas, com intervalo de três meses entre cada uma delas. As pesquisadoras esclareceram que a metodologia de coleta é baseada no processo de sedimentação: “Expomos as placas em duplicata por um período de 15 a 25 minutos nessas áreas selecionadas no centro da cidade (veja abaixo a lista das áreas de coleta), sendo utilizado meio de cultura para bactérias e para fungos; com isso esperamos obter a maior parte da diversidade microbiana cultivável”.

Posteriormente, as placas são submetidas à metodologia de cultivo em estufa, no caso das bactérias, e em atmosfera ambiental, no caso dos fungos. “Esse tempo de cultivo varia. No caso das bactérias, em 24 horas fazemos a contagem, identificamos os morfotipos e fazemos os isolados, e em seguida a identificação bioquímica. Assim teremos o resultado final da diversidade de micro-organismos cultiváveis. A partir dos isolados obtidos faremos o estudo funcional dos fungos, bactérias e leveduras”, disse Fernandes.

A professora informou ainda que todos os micro-organismos têm capacidade de produção de “metabólicos secundários”. De acordo com ela, esses metabólicos podem ser utilizados em “benefício da humanidade”: “Esses metabólicos podem ser aplicados na produção de antibióticos, degradação de compostos orgânicos e inorgânicos; muitas substâncias têm sido exploradas pelas muitas áreas da indústria, o que tem minimizado alguns problemas mundiais, pois os micro-organismos são os maiores decompositores de matéria orgânica no planeta. Os ecossistemas só conseguem sobreviver e manter-se íntegros graças à presença deles”.

Resultados preliminares – A professora Graciene Fernandes apresenta os primeiros resultados: “Os resultados preliminares demonstraram que os gêneros bacterianos mais frequentes são de Gram positivos, com 82,5% para bastonetes, cocos com 30%, seguido dos bastonetes (7,5%) e cocos Gram negativos (5%). Entre os fungos, os gêneros de filamentosos mais abundantes, destacam-se Aspergillus, Cladosporium e Penicillium e foram identificados quatro morfotipos de leveduras, ainda em processo de identificação bioquímica. Todos estes isolados ainda estão em análise de acordo com os objetivos propostos no projeto e nos planos de trabalho dos alunos envolvidos, que são até agora cinco, do ICTA e do IBEF”.

Sobre os resultados: “O que mapeamos nesses pontos serve como parâmetro. Não significa que em toda a cidade vai ter essa diversidade. Cada ambiente oferece condições específicas e essa diversidade ambiental é que seleciona quais são as bactérias e os fungos que estão presentes naquele local específico”.

Sobre o excesso de poeira em virtude das ruas não asfaltadas da cidade, a professora afirma que: “Todo material em suspensão vai se sedimentar em algum lugar. A esse sedimento vai ser incorporada uma microbiota que, por sua vez, vai fazer proveito dos substratos nutritivos que vão permitir com que o micro-organismo prolifere”.

Planos de trabalho desenvolvidos por alunos – Cursando o décimo semestre de Biologia (ICTA), Ridel Fernandes está desenvolvendo trabalho de conclusão de curso (TCC) intitulado “Monitoramento da microbiota do ar de área urbana de Santarém, PA”, cujo objetivo é “fazer o levantamento da diversidade, a identificação de possíveis micro-organismos patogênicos e o potencial funcional da comunidade microbiana”. Ele é um dos responsáveis pela coleta das amostras do ar. “Escolhemos esses locais para coletar por causa do fluxo de pessoas, de carros e por serem pontos que estão sujeitos à poluição constante”.

Nathan Silva é estudante do quarto semestre do curso de Biotecnologia (Ibef). Quando iniciou o estágio no Laboratório de Ensino Multidisciplinar de Biologia Aplicada, deparou com as pesquisas sobre microbiota do ar e se interessou, elaborou um plano para TCC sobre o tema. “Percebi, pelas aulas no laboratório, que com os resultados preliminares obtidos na taxionomia feita pelo Ridel poderíamos elaborar muitas outras pesquisas, daí pensei em aplicar os conceitos da biotecnologia nesses resultados. O projeto tem como objetivo a caracterização do gênero Aspergillus e avaliação da produção de microtoxinas.

De acordo com as pesquisadoras, até o final do primeiro semestre de 2018 serão divulgados os primeiros resultados das pesquisas.

Confira os pontos de coleta:

  • Av. Rui Barbosa X Turiano Meira
  • Av. Rui Barbosa X 15 de Novembro
  • Av. Galdino Veloso X 15 de Novembro
  • Av. São Sebastião X 15 de Novembro
  • Av. São Sebastião X Turiano Meira
  • Av. Mendonça Furtado X Barjonas de Miranda
  • Av. São Sebastião X Barjonas de Miranda
  • Av. Presidente Vargas X Barjonas de Miranda
  • Praça da área externa do Parque da Cidade (ponto-controle)

Texto e foto: Lenne Santos - Comunicação/Ufopa

20/3/2018

Fezes de aves podem alterar qualidade do ar no centro de Santarém. Foto: Lenne Santos, 5/3/2018.

Notícia em destaque