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Universidade Federal do Oeste do Pará

Pesquisadores brasileiros descobrem nova espécie de cobra-de-duas-cabeças


11 de Junho de 2018 às 11:46

Pesquisa uniu cientistas de três universidades públicas na identificação de uma nova espécie de anfisbena encontrada no Norte da Bahia. A descrição da nova espécie contou com a participação de professor da Ufopa do Campus de Oriximiná.

Uma nova espécie de cobra-de-duas-cabeças foi descoberta por pesquisadores brasileiros em área de caatinga, no Norte da Bahia. Apesar do nome popular, esse animal não é uma serpente, nem possui duas cabeças. Os herpetólogos – especialistas que estudam anfíbios e répteis – chamam as cobras-de-duas-cabeças de anfisbena, nome de origem grega que quer dizer “que anda para os dois lados”.

Denominada de Amphisbaena kiriri, a nova espécie foi descrita, a partir de um trabalho conjunto, por três docentes de universidades públicas: Prof. Dr. Leonardo Ribeiro, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), que coordenou o estudo; Prof. Dr. Samuel Gomides, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Campus de Oriximiná; e o doutorando Prof. Me. Henrique Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua descrição eleva para 23 o número de espécies de anfisbenas para a caatinga.

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Exemplar de anfisbena da coleção da Univasf. Foto: Acervo da pesquisa.

“As anfisbenas são répteis que, com os lagartos e as serpentes, formam um grupo denominado Squamata e compartilham um ancestral em comum. Apesar de parentes próximos, as anfisbenas não são serpentes. Elas vivem enterradas no solo, por isso tem os olhos bem pequenos, quase vestigiais, e não enxergam muito bem”, explica o coordenador do estudo, Leonardo Ribeiro, da Univasf. “Pelo fato da cabeça ser bem parecida com a ponta da cauda, muitas pessoas ficam confusas e acham que esse animal possui duas cabeças, o que não é verdade”, esclarece. “As anfisbenas não são peçonhentas ou venenosas e não oferecem nenhum tipo de perigo".

A descoberta foi publicada, em maio deste ano, no periódico internacional Journal of Herpetology, publicação com fator de impacto 0.911, editado pela Society for the Study of Amphibians and Reptiles - SSAR (Sociedade para o Estudo de Anfíbios e Répteis), considerada a maior sociedade herpetológica internacional, com sede nos Estados Unidos. No artigo "A New Species of Amphisbaena from Northeastern Brazil (Squamata: Amphisbaenidae)", os pesquisadores descrevem a nova espécie de Amphisbaena da Caatinga.

Confira o artigo aqui: http://www.bioone.org/doi/full/10.1670/17-028.

Descrição - A espécie foi descoberta quando Leonardo Ribeiro estudava espécimes depositados na coleção herpetológica da Univasf, oriundos de um estudo de monitoramento ambiental para a construção de usinas eólicas no interior da Bahia, na região do município de Campo Formoso. Ele percebeu que esses animais não se encaixavam em nenhuma descrição de espécie conhecida e, por isso, se tratava de uma espécie nova para a ciência. “O conhecimento sobre a riqueza de espécies de cobras-de-duas-cabeças tem aumentado intensamente no Brasil desde a década de 1990, especialmente na Caatinga e no Cerrado, em maior parte devido a coletas em áreas previamente não amostradas para fins de estudos de impacto ambiental”, afirma.

“Essa nova espécie tem uma história de descoberta feita a muitas mãos”, revela Samuel Gomides, da Ufopa. “O Dr. Leonardo Ribeiro, da Univasf, recebeu esse animal a partir de trabalhos de estudos ambientais feitos na construção de uma usina eólica na região da Bahia. Ele percebeu que esse animal não se encaixa em nenhuma espécie conhecida para a região, e me mostrou esse exemplar. Nós estudamos os espécimes e percebemos que se tratava de uma espécie totalmente desconhecida pela ciência, e que nunca havia sido reportada ou estudada. Dessa forma, começamos o processo formal de descrição da espécie”, lembra.

“Convidamos um terceiro colega, o doutorando Henrique Costa, da UFMG, que atualmente trabalha com esse grupo de répteis no seu doutorado e tinha informações muito valiosas que poderiam ser incluídas no artigo elaborado. Analisamos o material, comparamos com as outras espécies e, a partir dos dados obtidos, escrevemos conjuntamente o artigo que foi publicado”.

O trabalho foi feito em três estados diferentes (Pernambuco, Pará e Minas Gerais), com análises em quatro universidades federais. “Além da instituição onde cada pesquisador está situado, tivemos a colaboração da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que cedeu o espaço para algumas análises feitas em microscópio”, explica Gomides. “As facilidades do mundo moderno, como a internet, possibilitam a cooperação multi-institucional para a produção da ciência”.

Para os pesquisadores, a descoberta ressalta a importância dos estudos de impacto e de monitoramento ambiental em empreendimentos que interferem no ambiente natural. “Em um momento onde se discute um relaxamento das leis ambientais no país (caso da PL 3729/04), este achado indica a necessidade de mais investimentos para inventariar nossa biodiversidade e a necessidade de entender como os empreendimentos podem afetar as espécies”, afirma Ribeiro. A espécie recém-descoberta, por exemplo, só é conhecida no município de Campo Formoso, em áreas que foram impactadas pelas obras da construção da usina eólica. Para os cientistas, serão necessários estudos futuros para avaliar se a espécie é abundante ou rara na região.

Em abril deste ano, a área onde a nova espécie foi descoberta se tornou oficialmente parte da Área de Proteção Ambiental Boqueirão da Onça – um tipo de unidade de conservação que permite ocupação humana e outras atividades. O local fica a menos de 1 km do também recém-criado Parque Nacional do Boqueirão da Onça. Apenas com novos trabalhos na região será possível afirmar se o réptil também habita o parque.

Homenagem - O nome científico da nova espécie é Amphisbaena kiriri, em homenagem aos índios kiriris, também conhecidos como kariris ou cariris, que antigamente viviam em grandes comunidades nas caatingas do interior do estado baiano, e atualmente estão restritos a poucos indivíduos. Eles falavam quatro dialetos que atualmente estão extintos. “O nome dado à espécie é uma forma de homenagear os habitantes originais da região, e chamar a atenção para a situação dos indígenas brasileiros, que sofrem com a destruição dos ambientes naturais e a expulsão das suas terras originais, assim como muitos representantes da fauna”, explica o professor Ribeiro.

A palavra “kiriri” significa silencioso ou taciturno na língua tupi, original dos nativos do litoral brasileiro. Algo que também remete aos hábitos desse animal, que vive escondido sob os solos e não emite nenhuma vocalização, o que dificulta sua observação no seu hábitat natural. A área onde a espécie foi descoberta é conhecida também por abrigar algumas comunidades quilombolas, locais onde descendentes de escravos das fazendas de cana do estado se abrigavam para fugir da vida de exploração e abusos sofridos pelos colonizadores.

Durante muitos anos, a caatinga foi considerada um bioma com pouca biodiversidade frente a outros biomas brasileiros, o que pesquisas recentes têm contestado. “A verdade é que a caatinga apresenta uma alta riqueza de espécies, e com várias espécies endêmicas, ou seja, que só são encontradas lá, o que é o caso da anfisbena-kiriri”, afirma Ribeiro. Com a nova descoberta, chega a 23 o número de espécies desse grupo de répteis na caatinga. No Brasil, são conhecidas 795 espécies de répteis, sendo que, destas, 72 são de anfisbenas. O país ocupa atualmente a 3º colocação no número de espécies de répteis, ficando atrás somente da Austrália (1.057 espécies) e do México (942 espécies).

Estudos taxonômicos: a difícil tarefa de identificar uma nova espécie

“Esse é um estudo taxonômico. Trata-se, basicamente, de analisar espécimes e classificá-los dentro da árvore da vida. A taxonomia é essencial para descrever os organismos, de agrupar indivíduos em espécies, organizar espécies em grupos maiores e dar nomes aos grupos, produzindo assim uma classificação que reflita a evolução das espécies”, explica o professor Samuel Gomides, do Campus de Oriximiná da Ufopa.

Segundo Gomides, a taxonomia é a ciência que busca definir e nomear grupos de organismos biológicos com base em características compartilhadas. Organismos são agrupados em taxa (singular: táxon) e esses grupos recebem uma classificação taxonômica; grupos de uma determinada classificação podem ser agregados para formar um supergrupo de maior hierarquia, criando assim uma hierarquia taxonômica. “A taxonomia é essencial para os estudos de sistemática, que é o sistema de classificação biológica moderna, baseado nas relações evolutivas entre organismos vivos e extintos”.

Para o professor da Ufopa, a identificação de uma espécie nova não é tão simples quanto parece. “Primeiro examinamos um espécime. A partir daí comparamos suas características com as outras espécies conhecidas. Não é uma tarefa fácil. Só no Brasil, temos mais de 70 espécies de anfisbenas. São quase 800 espécies de répteis e mais de 1000 de anfíbios. Somos o terceiro país no ranking de diversidade de répteis, e lideramos o ranking no grupo de anfíbios”, revela.

O pesquisador explica que é necessário analisar várias características de um espécime para identificá-lo corretamente. “Avaliamos o tamanho do animal e de suas estruturas anatômicas, número e formato de suas escamas, coloração e várias outras características morfológicas. Inclusive, é comum o uso de análises genéticas”. Geralmente não basta apenas um indivíduo para o trabalho, sendo necessárias mais amostras da população estudada. “Nesse trabalho, conseguimos oito animais da mesma região”.

Após um extenso processo de comparação dos dados desses animais com exemplares de outras espécies, os pesquisadores conseguiram descrevê-los ressaltando todas as diferenças entre a espécie nova para as outras espécies já conhecidas, demonstrando assim que realmente a espécie nova é diferente de tudo que se conhecia anteriormente.

“Após todo esse processo, o artigo foi submetido para a publicação no periódico americano Journal of Herpetology, onde, após passar pela avaliação do editor-chefe, foi avaliado por mais dois especialistas da área, que ratificaram os nossos achados como inéditos”, explica.

LEEARN - Contratado pela Ufopa por meio de concurso público em 2017, o professor Gomides integra o grupo de pesquisa “Biodiversidade, Ecologia e Conservação de Organismos Neotropicais” (Becon) junto com outros cinco pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, como Ecologia, Conservação, Botânica e Zoologia, envolvidos em pesquisas sobre organismos neotropicais, sobretudo os amazônicos.

O professor coordena o Laboratório de Ecologia e Evolução de Anfíbios e Répteis Neotropicais (LEEARN), que é focado no estudo da herpetofauna, grupo formado pelos anfíbios e répteis. “O LEEARN tem estudado os anfíbios e répteis da Calha Norte, e no curto espaço de tempo que entrou em atividade já descobriu diversas espécies que não eram conhecidas para a região, além de encontrar espécies que provavelmente são novas para a ciência, como o caso dessa anfisbena”, afirma o pesquisador.

Segundo Gomides, vários trabalhos vêm sendo desenvolvidos nessa linha pelos seus orientados, também em parcerias com pesquisadores de outras instituições brasileiras (UFMG, UNIVASF, UFJF e USP) e do exterior (Universidade de Oxford, Inglaterra). “Nesse sentido, nosso laboratório foca no entendimento da composição da biodiversidade de anfíbios e répteis do Neotrópico, e os processos envolvidos na evolução desse grupo megadiverso”.

Comunicação/Ufopa, com informações da Univasp e do professor Samuel Gomides

11/6/2018

Detalhe de exemplar da nova espécie Amphisbaena kiriri. Foto: Acervo da pesquisa.